Certa vez atendi uma paciente de trinta e sete anos, com uma parada cardíaca.
Ela havia tido a parada dentro da ambulância do resgate, após uma dor no peito e um desmaio em casa. Eu e a outra plantonista ficamos fazendo reanimação por quase duas horas, já que a paciente não tinha nenhuma história de problemas de saúde, exceto que no dia anterior havia recebido alta após a retirada de um nódulo mamário, mas todos os exames pré-operatórios foram normais.
O eletrocardiograma na hora da parada mostrava arritmias graves, que não responderam nem a remédios nem a “choque”.
Quando desistimos, fui dar a notícia do óbito, e a primeira coisa que o marido me perguntou foi:
“Quem vai dar o atestado?”
Vamos ver se eu entendi…eu pensei.
1- Ele está casado com uma pessoa que supostamente gosta, e quando ela morre ele pede o atestado antes de chorar?
É ruim, hein?
2- E se alguém quisesse matar uma pessoa, não seria oportuno botar a culpa na “anestesia”, logo após uma cirurgia?
Foi quando eu disse que não daria o atestado e mandaria o corpo para o IML, pois não havia achado explicação para uma morte súbita.
O viúvo teve um acesso de raiva e disse que ia chamar a polícia (Sem chorar).
Eu disse que quando ela chegasse seria bom, pois todos nós iríamos pra Delegacia, e as partes seriam OUVIDAS…
Ele continuou esbravejando e voltei para preencher a ficha de evolução do caso.
Quando virei de costas ele gritou mais ainda e chamamos o segurança para “acalmá-lo”.
Ouvi dizer que o médico “da família” deu o atestado. Hum-hum. Sei.
MORAL: Médico (geralmente) não é burro.

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